Negócios Sociais

Princípios para formar negócios de impacto socioambientais

By 30 de março de 2021No Comments

Vou contar uma história que começou na década de 60, mais precisamente no ano de 1961. Não é a minha história de vida! Mas lá em 1961 o presidente dos Estados Unidos John Kenedy foi a público na TV e fez um pronunciamento histórico, um compromisso, ele prometeu que até o final daquela década o homem chegaria na Lua – e isso aconteceu.

Quando nós pensamos nessa história, na maneira como o presidente Kenedy foi a público, prometeu fazer alguma coisa que jamais tinha sido feita na história, nós podemos começar a refletir nas causas, no peso que nós damos para cada causa que acreditamos.

E hoje… porque que um líder mundial, um chefe de estado como Kenedy não vem a público, com essa mesma energia, com esse mesmo comprometimento para resolver problemas sociais? como a desnutrição das crianças e mortalidade infantil, a pobreza extrema de milhares de pessoas, a desigualdade social imposta, a poluição do meio ambiente, degradação das florestas, a educação básica para todos, esses são alguns exemplos.

E aí nós podemos começar a pensar … o que nos faria ir a público e fazer o compromisso de nos nossos próximos 5, 10 ou 15 anos passar a nossa vida, nossa energia, gastar nosso tempo, para resolver um problema social de verdade – o que nos moveria a fazer isso?

Há mais de 13 anos eu percebi que existia uma desconexão muito grande entre o que eu fazia na época em que eu não pensava nestas coisas – eu trabalhava no meu escritório de contabilidade e administração, com empresas focadas apenas no lucro – e as causas que eu mesmo reconhecia que eu gostaria de fazer para ajudar a resolver e me faziam sentido.

Só depois eu descobri que existia um nome para o que eu queria fazer da minha vida – chamado empreendedorismo social, negócios que gerassem impactos positivos na sociedade.

Nessa época conheci o professor Takashi Yamauchi que me ensinou muito sobre o terceiro setor, busquei livros e documentários de Muhamad Yunus sobre negócios sociais, assisti documentários – Mara Mourão, Tales Gomes – sobre empreendedores de sucesso. Comecei a buscar referências nos livros, descobri empresas, organizações de trabalho incentivando o fomento do empreendedorismo social, dos negócios de impacto social e ambiental.

Esses negócios são basicamente a combinação da engrenagem de um negócio tradicional que visa o lucro com a missão social de resolver problemas reais principalmente da base da pirâmide – pessoas em vulnerabilidade social.

Mas até aí … tudo na teoria.

Nestes anos de trabalhos com negócios de impacto, aconteceu comigo, alguns casos marcantes que mudaram bastante meu conceito sobre tudo isso. Foram visitas a um projeto social de boxe no Rio de Janeiro nas comunidades e uma visita a um projeto em São Paulo numa casa de atendimento de pessoas com deficiência mental severa.

Quando sai dali fiquei me perguntando, o que eu podia fazer para minimizar ou acabar com aquele problema? Alguma coisa eu precisava fazer, mesmo dentro das minhas possibilidades.

Então quer dizer, quando nós somos inseridos nesta realidade, nós que somos de fora dessa realidade social e começamos a vivenciar esses problemas, isso nos torna mais empáticos, isso nos dá força para querer mudar essa realidade, transformar essa realidade.

E isso acontece sempre, isso aconteceu comigo e eu tenho certeza que acontece com vocês, se forem entrar e vivenciar esse contexto social.

Muitas vezes quando nós entendemos que existe um problema para ser solucionado e nós não estamos conseguindo a solução, mas esse problema social está ganhando de nós, isso pode desmotivar, desanimar e até mesmo questionar nosso trabalho.

Por que isto não está adiantando? Por que isso está acontecendo?

Hoje individualmente as pessoas, as empresas, não estão conseguindo lidar com esses problemas de uma forma rápida, de uma forma mais exponencial.

Então, nós devemos olhar para as políticas públicas, para as intervenções sociais, o que elas têm em comum e que podem dar resultado positivo, e que podem acelerar o processo e conseguir chegar perto de resolver algum tipo de problema socioambiental.

Nos últimos anos nós estamos trabalhando para construir essa cultura dos negócios sociais e ambientais – que nós acreditamos que geram um impacto positivo muito grande na sociedade. Esses negócios têm como alicerces alguns valores ou alguns princípios – muito simples e que fazem todo diferencial no sucesso deste tipo de negócio.  

Aprendi muito sobre esses alicerces – esses princípios – com o trabalho realizado por alguns empreendedores e eu quero compartilhar um pouco desses princípios com vocês. Eles são a base e podem ajudar a formar os negócios de impacto socioambientais sustentáveis – que dão certo!!!

O primeiro princípio fundamental – PROPÓSITO.

É fundamental tratar do propósito porque nós vemos muitos empresários que começam um negócio pensando só em ganhar dinheiro, só numa recompensa a curto prazo, mas que isso é muito frágil. Quando o empresário se vê diante de uma dificuldade, que são muitas e ele não consegue mapear num momento em que toma uma decisão de abrir uma empresa as dificuldades que vão acontecer. Se ele não tiver resiliência – que é essa habilidade de cair, levantar, passar pelas adversidades, e ele estiver só motivado por dinheiro, normalmente o negócio tende a não dar certo – quebra!!!

Eu faço uma comparação, uma associação muito grande, quando nós falamos em propósito, entre a carreira de um artista, de um músico por exemplo, e a carreira de um empreendedor. O artista, ele é movido por um propósito, por uma paixão, mesmo que ninguém assista sua apresentação, escute sua música, ou compre sua tela, seu quadro, ele continua trabalhando naquilo, porque ele tem uma motivação interna que faz com que ele continue seguindo adiante, apesar das dificuldades, apesar das pessoas não enxergarem o que ele enxerga, ou não virem o que ele vê.

Assim como o empreendedor, que muitas vezes é um visionário, que tem uma ideia, e que apesar de todas as circunstâncias externas que encontra, ele tem resiliência de seguir adiante – isso é propósito.

O segundo princípio chama-se EQUIDADE – esse conceito não é novo, não é nenhuma palavra nova – nós confundimos muito equidade com igualdade – esse conceito vem de Platão e Aristóteles – na Grécia antiga – A equidade é colocada muitas vezes, acima da igualdade.

Podemos dizer que é uma combinação entre igualdade e justiça. Ele diz que “a equidade é a correção da lei quando ela é deficiente em razão da sua universalidade”. Ou seja, a gente precisa tratar os iguais de forma igual, e os desiguais de forma desigual.

Um exemplo, nas Paralimpíadas, onde cada modalidade tem diferentes níveis, de acordo com o grau de deficiência da pessoa, isso para garantir que as pessoas possam competir de forma igual e justa, ou seja, equânime, com equidade.

Esse conceito – esse princípio – de equidade, parece muito simples e até muito lógico – por exemplo ele é aplicado na área da saúde,  no SUS – Sistema Único de Saúde, nós vemos esse reflexo na própria classificação de risco, que garante que uma pessoa, por exemplo, que sofre com alguma doença grave, ou uma fratura, por exemplo, que chega num hospital ou numa unidade de saúde, seja atendida primeiro, vai passar na frente, daquele indivíduo que tem uma gravidade ou doença menor que ele, mesmo que essa indivíduo tenha chegado muito antes.

Eu acredito que esse conceito de equidade precisa ser muito pensado pelos empreendedores sociais, pelos empresários, por todos. A ONU em 2015 na reunião que resultou na agenda 2030 – dos 17 ODS – Objetivos do Desenvolvimento Sustentável – trata da prosperidade com equidade.

Todos os representantes dos 193 países se reuniram para discutir uma agenda de propostas que permitiam que fossem criados mecanismos para garantir que todos cresçam com oportunidades justas e iguais, não deixando ninguém para trás.

Eu acho que a equidade está muito mais associada ao ponto de vista da solidariedade do que da caridade por exemplo. Porque a caridade é vertical, de cima para baixo, uma organização ajudando a outra, é mais assistencialista. Enquanto a solidariedade ela busca essa relação horizontal, que olha olho no olho, e é isso o que a gente busca fazer dentro dos negócios que geram impacto social.

O terceiro e último princípio ou pilar que eu quero compartilhar com vocês é sobre o PROTAGONISMO. E aí voltando à Grécia antiga, protagonismo vem do grego “protos agonistus” – o primeiro que vai a batalha – o primeiro que vai a guerra, o primeiro que dá a cara a tapa, que não tem medo de correr riscos.

E eu acho que esse princípio do protagonismo está de forma intrínseca em todos nós.

Ser a primeira pessoa a realizar algo novo e de importância social.

Esse ponto do protagonismo faz voltar naquela questão anterior sobre que tipo de causa a gente estaria disposto a se comprometer para os próximos 5, 10 anos ou nossa vida toda para resolver problemas que as pessoas sentem na pele de verdade.

Eu aprendi muita coisa sobre negócios sociais e ambientais, sobre empreender de verdade, gerar impacto positivo na sociedade, conheci gente que coloca a mão na massa e fazem as coisas acontecerem, são verdadeiros protagonistas da sua história.

Eu aprendi por exemplo, que dinheiro é uma motivação muito frágil, que o empreendedor social que constrói negócios de impacto é movido por propósito. Aprendi também que ter ideias e sonhar é muito legal, mas também não é o suficiente. Porque sonhar inspira, mas executar é que transforma.

Os negócios de impacto social e ambiental transformam a sociedade porque executam projetos pensando com equidade, realizam algo novo fora dos padrões convencionais, são protagonistas de uma nova economia e acima de tudo tem um propósito de minimizar as desigualdades sociais.

Quando nós falamos de uma nova economia, esse modelo só pode ser alcançado, quando as empresas e as pessoas – trabalham com uma finalidade, um propósito, com objetivos bem claros e bem definidos.

A economia convencional é uma economia baseada na escassez, nos valores tangíveis. Já na nova economia nós conseguimos entender que quando uma pessoa ganha, a outra não precisa perder. Senão fica uma economia a base de competitividade.

Propósito, Equidade e Protagonismo são os pilares básicos para formar negócios de impacto positivo na sociedade.

E é justamente com um olhar nos 3 pilares fundamentais que vai acontecer a transformação em massa, que vai mudar a vida de dezenas, centenas, milhares de pessoas, que é onde vai acontecer a sustentabilidade de todo ciclo.

Nós entendemos que quanto mais impacto social nós conseguimos mostrar, mais AMOR a gente vai gerar, mais pessoas interessadas vão se sentir parte do processo. Então, quanto mais amor nós mostramos com impacto social, com trabalho bem realizado, com iniciativas de bom resultado, mais pessoas são atraídas, mais empatia nós entregamos. Quanto mais empatia nós temos, mais pessoas se colocando no lugar do próximo, mais solidariedade, ou seja, mais pessoas indo para ação, mais projetos acontecerão. Quanto mais projetos acontecerem, mais dignidade nós entregamos, então quanto mais dignidade nós entregamos, a palavra-chave dessa espiral é confiança. E quanto mais confiança nós entregamos para essas pessoas que estão sendo atendidas, maior é a chance de alcançar o impacto na sociedade.

Marcos Rocha

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